sábado, 15 de agosto de 2015

Dias dos Namorados - Poema de Amor


Você pode encontrar o amor na esquina,
ou encontrar uma prostituta...

Procura da Poesia - Carlos Drummond de Andrade




Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Três Coisas - Mário Lago - Poeta Moderno



Três coisas – Mário Lago

Três coisas pra mim no mundo
Valem bem mais do que o resto
Pra defender qualquer delas
Eu mostro o quanto que presto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o grito, é o passo, é o gesto

O gesto é a voz do proibido
Escrita sem deixar traço
Chama, ordena, empurra, assusta
Vai longe com pouco espaço
É o passo, é o gesto, é o grito
É o gesto, é o grito, é o passo

O passo começa o voo
Que vai do chão pro infinito
Pra mim, que amo estrada aberta,
Quem prende o passo é maldito
É o grito, é o passo, é o gesto
É o passo, é o gesto, é o grito

O grito explode o protesto
Se a boca já não dá espaço
Que guarde o que há pra ser dito
É o grito, é o passo, é o gesto
É o gesto, é o grito, é o passo
É o passo, é o gesto, é o grito

A Lembrança e O Tempo


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Eu não quero um padre Negro/Alemão

 Eu não quero um padre negro
(mas não há racismo nisto)
eu não quero um padre negro, eu insisto 
Eu quero um padre bem velhinho 
Com cabelos brancos e olhos da cor do céu
Porque o padre negro me confunde 
(porque o negro [como falta de luz] é antítese do que se mostra e do que se representa)
Mas eu não quero um padre alemão 
(porque alemão, quando velho, traz a expressão de coisa ruim ou má)
Mas não posso generalizar 
Mas não quero um padre alemão 
Quero um padre magrinho
Cabelos brancos de algodão 
Como se fora um representante alvejado 
Da minha imaginação 
(desenhado pela religião)
Como um Papai Noel magro
(um pouco Mário Lago)
Repara:
O padre é branco e fala de luz
É representante de  Deus
Ou Jesus 
Com santos europeus 
Falando de um Galileu
De olhos azuis  - Hércules de Souza Víler - Poeta Moderno